Nossos serviços
Entre em contato

Capitais e região metropolitana:
4007.2302

Demais cidades:
0800.002.2302

Whatsapp:
4007.2302


Av. Júlio de Castilhos, 44 - Térreo
Porto Alegre - RS - CEP 90030-130 | Como chegar

COPYRIGHT © 2020. Conheça nossa Política de Privacidade.

brivia

Educação | 12 de junho de 2017
Ensino superior é passaporte de ascensão social, cultural e econômica de minorias e da população marginalizada
Para sociólogo Paulo Cabral, o aumento da escolaridade é a grande ferramenta de inclusão no país.
Copiar link
Ensino superior é passaporte de ascensão social, cultural e econômica de minorias e da população marginalizada

realização de um sonho, a conquista da independência, a redescoberta de si mesmo, uma chance de ascensão social, a esperança de um futuro melhor, um recomeço de vida, uma oportunidade de inclusão. As definições são as mais variadas possíveis, mas todas têm em comum um mesmo sentimento sobre o que representa o acesso ao ensino superior no país, especialmente para as minorias e a parcela marginalizada da população, um divisor de águas, que catalisa transformações sociais, culturais e econômicas, além, é claro, das educacionais.

Um exemplo deste potencial transformador do ensino superior é o da trajetória de vida do professor Adriano Gianotto. Ele é surdo e foi a primeira pessoa com esse tipo de deficiência a concluir um mestrado em Mato Grosso do Sul, o de Desenvolvimento Local, pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) . Agora também é o primeiro a fazer um doutorado.

Ele conta, entretanto, que o caminho para chegar até o doutorado foi difícil e demandou muito esforço e dedicação. Recorda que foi criado, junto com outros quatro irmãos somente pelo pai, e que estudando em escola convencional no ensino fundamental e no médio, tinha que se desdobrar para apreender. Quando chegou ao ensino superior, acabou tendo que trancar a primeiro curso que tentou, o de Direito, porque teve dificuldades com as trocas de intérpretes e perdeu sua bolsa de estudos.

Ingressou depois em outra instituição. Fez Pedagogia pela Universidade Leonardo de Vinci (Uniasselvi) e não parou mais de estudar. Fez duas pós-graduações, em Libras e em Educação Especial, com ênfase em Deficiência Auditiva e depois do mestrado, concluído em 2016 e cuja pesquisa virou um livro. Faz atualmente um doutorado, também pela UCDB, sobre o uso de libras voltado para a tecnologia.

Casado, pais de três filhas, sustenta a família trabalhando como professor de Libras da secretaria municipal de Educação de Campo Grande e também como orientar na Pós-Graduação em Libras, pela UCDB Virtual.

“As pessoas sempre me perguntam como é que eu consegui. Eu digo sempre que elas têm de lutar, têm de se sacrificar pelo que querem. Se não tem dinheiro para pagar uma instituição privada, tem que ir atrás de bolsa ou tentar uma universidade pública. Não é fácil, mas se você lutar, você consegue. Quer exemplo melhor que eu. Sou o único entre meus irmãos, todos ouvintes, que tem ensino superior”, comenta.

A história de Gianotto acaba servindo de inspiração para outras pessoas com deficiência também buscarem a realização do sonho do ensino superior, como o estudante Cássio Roberto Gomes Silva, de 21 anos. Ele é deficiente visual e aluno do quarto ano de Direito, na UCDB.

“Nesse período de quatro anos dentro da universidade o grande ganho que eu tive foi em autonomia e na perspectiva financeira e profissional. Uma palavra que simboliza isso é ‘dignidade’. A Constituição fala que todo indivíduo tem direito a dignidade e isso para mim significa ter igualdade. É estar conversando com outra pessoa e ela não me ver com inferioridade. A universidade me proporciona isso. Dentro de sala de aula, com a tecnologia e com esforço, consigo ter o mesmo desempenho que meus colegas. Se eles fazem um trabalho, eu faço também, mas de uma forma diferente e o resultado é o mesmo. Eu aprendo e sou avaliado da mesma forma e assim vai ser também no meu campo profissional”, ressaltou.

A professora Maineide Zanotto Velasques, coordenadora do Núcleo de Apoio Pedagógico (NAP), unidade da UCDB que atende as demandas dos estudantes com deficiência, comenta que o ensino superior faz uma diferença muito significativa na vida destas pessoas.

“Eles mudam em uma série de coisas, que vão desde as relações interpessoais até a perspectiva profissional. Nessa área, por exemplo, a chance de conseguirem um trabalho depois de formados, principalmente hoje, com a política de cotas, é muito grande, praticamente garantida. Mas, para que isso ocorra, eles têm de ser acadêmicos como quaisquer outros. Têm que cumprir todas as etapas de formação, o que inclui provas, seminários e estágio, entre outros. Entendemos que no ‘mundo real’ nem sempre vão oferecer a eles as condições que a universidade disponibiliza. Por isso, estimulamos cada vez mais a autonomia deles”, analisou.

Dados do mais recente Censo da Educação Superior, o de 2015, divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontam que houve um crescimento no acesso da pessoa com deficiência ao Ensino Superior, mas ainda está longe de refletir o quantitativo desta parcela da população no país.

O Brasil, conforme o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tinha em 2010, 45.606.048 pessoas com deficiência, o que representava 23,9% da população. Desse total, 525.979 eram moradores de Mato Grosso do Sul, o equivalente a 21,47% dos habitantes do estado na época.

Entre 2014 e 2015 o número de alunos com deficiência matriculados em instituições de ensino superior no Brasil cresceu 13,6%, passando de 22.277 para 37.927, mas eles representaram neste último ano somente 0,47% do total de universitários do país, que foi de 8.027.297. No estado, o incremento na mesma comparação foi de 35,23%, de 667 para 902 estudantes, e a participação foi ligeiramente superior à nacional, 0,75%, de um total de 120.264.

Importância das cotas

Em Mato Grosso do Sul, leis estaduais estabeleceram em 2002, cota de 10% das vagas da Universidade Estadual (UEMS) para alunos indígenas (lei 2.589, de 26 de dezembro de 2002), e em 2003, 20% das vagas na mesma instituição, para estudantes negros (lei 2.605, de 6 de dezembro de 2003).

Em 2012, uma lei federal (12.711), que depois viria a ser regulamentada por uma série de decretos e portarias, estabeleceu que as universidades e instituições federais de ensino técnico, teriam um prazo de quatro anos, para implantar um sistema que reserva 50% das vagas de cada curso para modalidades de cotas que contemplem, de acordo com o percentual de participação no total da população do estado: negros, pardos, indígenas, pessoas com deficiência e pessoas com renda igual ou inferior a 1,5 salários mínimos, desde que elas tenham feito o ensino médio integralmente em escolas públicas.

A UEMS, pioneira na implantação das cotas em Mato Grosso do Sul (a de indígenas em 2003), promoveu em 2016 uma pesquisa em que demonstra a importância das chamadas ações afirmativas, com a reserva de vagas para minorias e segmentos ainda marginalizados da população. O levantamento mostrou que entre os indígenas que concluíram a formação universitária o ganho salarial médio, em torno dos R$ 3.177 chegou a ser 18 vezes maior na comparação com aqueles que não tinham curso superior, que tinham renda média de R$ 181.

A professora Beatriz Landa, Coordenadora do programa Rede de Saberes na UEMS, aponta que a criação das cotas facilitou o acesso, mas que o processo de permanência do indígena em uma instituição de ensino superior ainda é complexo. “O indígena vem de outra matriz, de outra cultura. Quando ele chega a universidade o primeiro momento é muito impactante para ele, muito desafiador porque ele vai ter que se adequar, vai ter que superar dificuldades como a língua, por exemplo, porque às vezes ele fala o idioma nativo”, analisa.

Entretanto, ela aponta que superadas as adversidades, até mesmo com a concessão de bolsas como o Vale Universidade Indígena, do governo do estado, para estimular a permanência destes estudantes na instituição, que o desenvolvimento que eles têm com o ensino superior é muito grande.

“Eles ganham mais autonomia. Têm que produzir o seu próprio conhecimento, têm que se aprofundar em novos assuntos e todas essas informações eles levam para as aldeias e as comunidades onde vivem. Percebemos que eles têm um compromisso de dar um retorno para esses locais”, comenta.

Exemplo desse comprometimento com a comunidade é da professora Fabriciane Malheiro, de 33 anos. Indígena da etnia terena, ela nasceu na aldeia Ipegue, em Aquidauana e mora atualmente na aldeia urbana Marçal de Souza, em Campo Grande. Cursou, entrando pelo sistema de cotas, Letras, com habilitação em Inglês, na UEMS.

“Enfrentei uma série de dificuldades para fazer o curso, desde doença na família até o cansaço, pela jornada tripla, de ter que trabalhar fazendo faxinas para me manter, cuidar do meu filho e da minha casa e ainda estudar. Muitas vezes pensei em desistir, não abandonei porque sempre foi o meu sonho. A graduação te faz ver a responsabilidade que você tem consigo e com quem está a sua volta. Ela me fez ver que eu tenho uma origem, que eu tenho uma descendência. Que eu tenho uma língua, uma cultura, comidas, que são diferenciadas das outras. Até então eu não entendia isso. Não compreendia que se essas coisas não forem passadas para a nova geração daqui a algum tempo não vai ter mais quem siga a nossa cultura”, conta.

Essa redescoberta fez com que ela logo após concluir a faculdade implantasse, com autorização das lideranças da aldeia urbana, aulas de danças tradicionais indígenas para crianças e adolescentes. “Mulheres vieram das aldeias para explicar e mostrar as crianças como era cada movimento e o que eles significavam. Foi muito importante, porque ajudou a resgatar, a acordar nossa cultura, que estava adormecida”, concluiu.

Para a professora Bartolina Ramalho Catalani, coordenadora da Comissão de Avaliação de Cotas da UEMS, a reserva de vagas em instituições de ensino superior a minorias e a população marginalizada possibilita uma grande quebra de paradigmas. “Simbolicamente é muito forte, porque possibilita superar a barreira da discriminação, do preconceito e da falta de escolaridade. A universidade traz inúmeros espaços para você pensar, para você se pensar, você pensar a sociedade, você se pensar dentro da sociedade e o que você vai fazer dentro da sociedade. Na maioria das vezes, esse estudante cotista é o único membro de sua família a chegar a uma universidade, e isso é muito forte”, afirmou.

Bartolina também comentou que o sistema de cotas para ingresso no ensino superior pode ser considerado uma ferramenta para “discriminar positivamente” segmentos da população que historicamente foram prejudicados.

“Porque que nós negros temos um quadro de desigualdade tanto de bens, quanto de acesso e de direitos na sociedade. É porque isso foi historicamente produzido. Os negros nunca tiveram nenhuma política pública, nenhuma política social. E se formos observar na história da educação, se observa que os negros eram proibidos de frequentar os bancos escolares. Se isso foi construído historicamente, precisamos também construir um quadro histórico para discriminar positivamente essa população, para tentar igualar o nível de escolaridade”, afirmou.

O Censo da Educação Superior indica que entre 2014 e 2015 cresceu em 42,25% o acesso de negros ao terceiro grau no estado, passando de 4.611 matriculados para 6.744. Apesar do aumento, neste último ano eles representaram apenas 5,60% dos universitários de Mato Grosso do Sul.

Já em relação aos indígenas também houve incremento no ingresso nas instituições de ensino superior sul-mato-grossenses, 37,51%, subindo de 837 em 2014 para 1.151, em 2015. A representatividade dessa parcela da população frente ao total de alunos matriculados nas faculdades e universidades locais, no entanto, foi de apenas 0,95% do total. Mato Grosso do Sul, de acordo com a Fundação Nacional do Índio, tem a segunda maior população indígena do país, com aproximadamente 77 mil pessoas.

Educação nos presídios

Mesmo para a população que está encarcerada, o ensino superior segue como uma ferramenta para promover uma mudança de vida. Exemplo disso é que dados da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (Agepen), apontam que em 2016, 932 detentos fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem Prisional), em Mato Grosso do Sul, e desse total, 6 conseguiram ser aprovados para ingresso em cursos de educação à distância (EAD) pelo Sistema de Seleção Unificada (SISU).

Conforme a agência, por meio de parcerias com instituições de ensino, cursos de EAD e semipresenciais já são aplicados em pelo menos oito unidades penais do estado. Em salas de informática monitoradas e com acesso restrito de conteúdo ou por meio de videoconferências os alunos acompanham as aulas e depois presencialmente são aplicadas as avaliações. Atualmente 13 internos fazem cursos de graduação, sendo cinco em Campo Grande (quatro no Instituto Penal e um no Centro de Triagem), uma em Rio Brilhante (Estabelecimento Penal Feminino) e sete em Corumbá (seis no Estabelecimento Penal e uma no Estabelecimento Penal Feminino de Regime Semiaberto e Aberto).

Entre os detentos que já concluíram um curso superior dentro de uma unidade penal está o ex-policial civil M.S.D., de 50 anos. Ele pediu para não ter o nome revelado pelo G1 por temer represálias e discriminação quando sair da prisão. Condenado a 30 anos de prisão, por peculato e concussão, já cumpriu sete e chegou a ir para o regime semiaberto, mas acabou voltando para o fechado. Está atualmente no Centro de Triagem de Campo Grande.

“Quando você é preso, toda a sua família vai presa. De algum modo a sua prisão vai afetar a todos. Então quando você tem a oportunidade de fazer alguma coisa que devolva pelo menos em parte o orgulho a eles, que demonstre que você está se esforçando para se recuperar, como é estudar, se você tiver a oportunidade, tem que fazer”, comenta o detento, que cursou Administração de Condomínios.

Na expectativa de obter novamente o benefício de progressão de pena e voltar ao regime semiaberto, M.S.D, diz que pretende reconstruir a vida quando sair da prisão. “Quero fazer uma pós-graduação e trabalhar. Sei que não vai ser fácil, mas ter curso superior vai me ajudar. Aqui dentro [presídio] todo mundo muda. Ou para o bem ou para o mal. Para o bem só tem três caminhos: Deus, família e a educação”.

Outro detento que projeta uma reconstrução de vida quando mudar de regime é R.D.W.V, de 25 anos. Condenado a 14 anos de prisão por um homicídio no trânsito, ele já cumpriu 4 anos e está atualmente no Instituto Penal de Campo Grande. Neste período está cursando uma faculdade, Gestão em Recursos Humanos, e o curso técnico em Transações Imobiliárias. “Uma das coisas mais importantes é a melhoria da auto-estima, o que é muito importante aqui dentro. Outro aspecto, além do conhecimento adquirido, é estar preparado para as oportunidades que vão surgir quando eu sair daqui”.

Para R.D.R, de 43 anos, outro interno do Instituto Penal da capital de Mato Grosso do Sul que faz o curso em Transações Imobiliárias, e que foi condenado a 40 anos, por crimes como assalto e seqüestro, já tendo cumprido 18 anos, a educação é um dos únicos caminhos para acabar com os rótulos que a sociedade impõe a detentos e ex-internos.

“Existe um estigma na sociedade, o de que todo criminoso é igual. Mas não é assim. Muitos querem morrer nessa vida, mas outros querem mudar. Sei que vamos enfrentar muitas dificuldades quando sairmos daqui, mas não quero nunca mais voltar. Quero ter uma vida digna e a educação vai ser fundamental para isso”, conclui R.D.R.

Passaporte

Na avaliação do sociólogo Paulo Cabral, o ensino superior é o grande passaporte de ascensão social, cultural e econômica das minorias e da população marginalizada, e as ações afirmativas desenvolvidas nas últimas décadas, com a instituição das cotas, tiveram um papel fundamental para facilitar o acesso a esses segmentos populacionais. “Hoje a vala comum da educação no país é o ensino médio. Mesmo com o ensino superior não representando como nos anos 70 e 80, a segurança de um emprego, de uma carreira, de sucesso profissional, o aumento da escolaridade é a grande ferramenta de inclusão no país”, concluiu.

Fonte: G1

Quero receber conteúdos voltados para:

Entre em contato através do WhatsApp

Entre em contato através do Messenger