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Educação | 21 de agosto de 2019
Aos 83 anos, moradora de Canoas se forma em Letras
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Aos 83 anos, moradora de Canoas se forma em Letras

Durante a formatura do curso de Letras da Universidade LaSalle, em Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre, no último sábado (17), uma das alunas estava especialmente feliz: aos 83 anos, Maria dos Santos Rigo, finalmente conquistou seu diploma universitário, após seis anos de dedicação à sua primeira graduação.

Aposentada como industriária, mãe de três filhos e viúva há 30 anos, Maria decidiu entrar na graduação já na terceira idade por causa de uma paixão: a literatura. Fundadora da Casa da Poesia de Canoas, instituição que incentiva e forma leitores, ela conta que escreve poesia desde a infância e já lançou até um livro.

Foi para agregar ao que eu já gostava de fazer. Como eu já escrevia e tinha interessa pela literatura, decidi ir para a faculdade para desenvolver mais. Foi muito bom, proveitoso para a minha escrita, comenta ela.

Quando decidiu ingressar no curso, Dona Maria conta que chegou a ouvir de alguns familiares e conhecidos que não conseguiria chegar até o final, que desistiria e não concluiria o curso. Mas o que aconteceu foi o contrário: até em dias de chuva, a aluna não perdeu aula. Só quando fiquei doente é que faltei um ou dois dias, conta.

Na apresentação do trabalho de conclusão de curso, obteve a nota 9 com um trabalho sobre o escritor canoense Antônio Canabarro Tróis Filho. O próximo passo da formada em Letras é escrever a biografia do autor. Mas isso vai demorar, uma biografia demora anos, não é assim de uma hora pra outra , afirma. Outro plano também é voltar mais uma vez para a sala de aula: ela que cursar História.

Maria cumpriu o estágio obrigatório do curso de licenciatura em escolas de ensino fundamental e médio e também na Universidade Aberta para a Terceira Idade (Unati), projeto voltado para a terceira idade do próprio LaSalle.

As pessoas me perguntavam: tu vai trabalhar? e eu olha, trabalhar sei que não vou, mas eu vou participar. Vou escrever. Não vai ser em vão , diz ela. A experiência conquistada em sala de aula servirá para a escritora promover palestras de forma voluntária.

De 2013 a 2019, Dona Maria conviveu com colegas e professores das mais diversas idades. Em sala de aula, estudava com pessoas de 20 e poucos anos e também com aqueles já passando dos 60. Com todos, garante, ela tanto ensinou quanto aprendeu.

Por exemplo, a tecnologia: Maria conta que não usava quase nada no computador. Na universidade, aprendeu a baixar os trabalhos e imprimi-los para ler. Hoje em dia todo mundo lê no celular, mas eu não consigo. Preciso imprimir para ler, comenta.

Mais do que novos hábitos, a graduação trouxe uma dimensão maior para uma paixão cultivada desde a infância. E que, garante ela, fica muito mais fácil depois da aposentadoria: a escrita.

Acho que a terceira idade é uma entrada pra gente escrever. Quem tem vontade de escrever e não conseguiu, na terceira idade é bom para desenvolver o conhecimento, comenta ela.

A pessoa que tem vontade tem que fazer. A gente só consegue fazendo, né? E se tiver dúvida, tenta. Pelo menos tu tentou. Pior é ficar em dúvida: ah eu deveria ter feito! Aconselha.

Dona Maria precisou cursar supletivo para comprovar que já tinha o ensino médio, que em sua época ainda se chamava segundo grau, concluído há décadas, quando ainda morava em Triunfo. No mesmo ano, foi aprovada no vestibular. Tinha 77 anos.

“Comecei com duas cadeiras. Meus filhos me incentivaram muito. Meu filho me trazia de carro para algumas aulas e minha filha auxiliava com alguns trabalhos, já que devido a idade eu tinha algumas dificuldades”, diz.

Se pudesse ter feito faculdade ainda durante a juventude, Maria não tem dúvida de que optaria pelo curso de Letras. Para a professora Lúcia da Rosa, coordenadora do curso de Letras da Unilasalle, ela pode ser considerada um exemplo de amor à literatura.

“Respeitada e admirada por colegas e professores, é um orgulho para nós que a Maria conquiste este diploma, ela é irriquieta, persistente e… enfim, é poeta!”, celebrou a professora.

Fonte: G1 RS

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