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Educação | 28 de maio de 2020
Como a pandemia impôs um novo futuro aos cursos de Engenharia
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Como a pandemia impôs um novo futuro aos cursos de Engenharia

A história é conhecida. O aluno ingressa em um curso superior na área de Engenharia e sofre como nunca nas temidas cadeiras de cálculo e física. Ele até persiste no curso por um tempo, mas uma série de reprovações em disciplinas teóricas o desanima. Por fim, larga o curso sem nunca ter colocado a mão na massa – o que se espera de um engenheiro.

Não é raro conhecer ou ouvir falar de alguém que seguiu um roteiro similar ao descrito acima. Dados de 2016 indicam que a evasão na Engenharia é uma das mais altas do ensino superior. De fato, pouco mais da metade (54,2%) dos que ingressaram em um dos 6 mil cursos espalhados pelo Brasil o concluem.

Um estudo do programa de pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, da Universidade Cruzeiro do Sul, publicado em 2016, investigou os motivos da evasão em cursos de Engenharia. Comprovou-se o que o senso comum sabia de antemão: após analisar 259 artigos sobre o tema, todos apresentados no Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (Cobenge) entre 2000 e 2014, a pesquisa concluiu que “existe uma forte relação entre evasão e a reprovação nas disciplinas do ciclo básico, com destaque para a disciplina de cálculo diferencial e integral”.

É claro que um engenheiro ainda precisa dominar conteúdos de cálculo e física. Mas pelo menos duas situações recentes – a pandemia do novo coronavírus e o avanço das tecnologias educacionais – estão colocando em xeque a maneira mais tradicional de ensiná-los. O resultado disso pode ser uma mudança de paradigma no cursos superiores de engenharia e, consequentemente, na atuação profissional na área.

A revolução nos cursos de engenharia começou com a aprovação, no ano passado, das novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) , pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). Trata-se da primeira alteração nas DCNs da área desde 2002.

Uma das principais mudanças diz respeito à formação por competências. Visão holística, inovação, empreendedorismo , solução de problemas, cooperação, adoção de perspectivas multidisciplinares e transdisciplinares em sua prática estão entre as características esperadas para os engenheiros do futuro.

Além disso, há uma reorientação do foco em direção a aprendizagem ativa. O engenheiro José Antônio Dias de Carvalho, que é pró-reitor de ensino do Centro Universitário Eniac, em Guarulhos (SP), lembra que as atividades práticas pouco apareciam nas antigas DCNs. Nas novas orientações, elas aparecem nove vezes.

“Isso reflete a importância que o conhecimento prático ganhou. Dessa forma, as instituições devem garantir maior carga horária para visualização da teoria na prática, o que é fundamental para um engenheiro ter boas perspectivas de formação profissional”, diz Carvalho.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) avalia que as mudanças na base curricular nos cursos de engenharia tornarão o ensino no do futuro mais moderno e alinhado às exigências da digitalização. Em parceria com a Associação Brasileira de Educação em Engenharia e com o CNE, a CNI deve lançar em junho um documento norteador para a implementação efetiva das DCNs no ensino superior brasileiro.

As IES têm até 2022 para ajustar os currículos, com flexibilidade para no projeto pedagógico a realidade da comunidade. Até lá, muita coisa precisa ser feita – segundo o professor Almir Holanda, que é membro da diretoria da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge).

“Para formar por competência , será preciso trabalhar não só com conhecimento, mas com habilidade e atitude para desenvolver profissionais proativos. Será preciso revisar metodologias de ensino e avaliação, saindo do paradigma do conteudismo dominante na educação tradicional”, destaca Holanda, que também é diretor do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).

As DCNs são vistas como uma janela de oportunidades para fazer uma grande revolução na educação dos engenheiros do futuro. Mas a situação de isolamento social provocada pela pandemia do novo coronavírus pode ter um efeito ainda mais transformador.

Isso porque muitas tecnologias educacionais utilizadas durante a quarentena vieram para ficar. Afinal, quando aplicadas de maneira planejada e associadas a metodologias ativas de aprendizagem, elas evidenciaram o esgotamento do modelo tradicional de ensino e se mostraram imprescindíveis na formação prática e por competências.

Isto é, as ferramentas tecnológicas vão ao encontro das necessidades formativas orientadas pelas DCNs.

O coordenador do curso de Engenharia Civil do Centro Universitário de Lavras (Unilavras), Alan Pereira Vilela, relata que o cenário atípico da docência não impediu conquistas em termos acadêmicos.

“Antes, nas ciências exatas, as metodologias ativas ficavam engessadas. Ao migrarmos para a plataforma virtual, conseguimos aperfeiçoá-las, trazendo estudos de caso e situações do dia a dia e permitindo uma participação maior do aluno em uma verdadeira troca de ideias com os professores”, explica.

Entre as ferramentas as quais Vilela se refere estão os laboratórios virtuais, capazes de simular com alta fidelidade os experimentos de um laboratório real. Com a vantagem de serem mais seguros e permitirem a repetição dos experimentos quantas vezes forem necessárias.

“Em algumas práticas presenciais, muitas vezes há apenas um equipamento e os alunos não conseguem se aproximar para observar com precisão”, pondera o pró-reitor de Engenharia da Centro Universitário Sumaré, Nikolas Scuro. “Já em um laboratório virtual, eles têm toda a simulação na segurança de suas casas.”

Não há como vislumbrar o futuro dos cursos de engenharia no Brasil sem analisar os impactos das novas DCNs e do impulso tecnológico provocado pela crise da provocada pela pandemia. O cruzamento de interesses entre esses dois pontos veio a calhar. E deve gerar repercussões nas metodologias de ensino.

“Quando as atividades presenciais forem retomadas, mesmo que o professor queira voltar ao normal, não vai ser como antes. Ele vai ser obrigado a mudar de estratégia, pois não vai conseguir ficar 100% no ensino presencial passando informações em um quadro para os alunos”, projeta Holanda, da UFC.

É a partir dessa necessidade de formação prática e por competências que as metodologias ativas – associadas ao uso de ferramentas tecnológicas – devem ganhar espaço. Com o conteúdo sendo majoritariamente trabalhado fora da sala de aula, o papel do professor, mais do que informar, será estimular o debate e orientar a prática para que o aluno seja o centro do processo de aprendizagem.

“As ferramentas tecnológicas vão ajudar o professor a trabalhar para formar competências nos alunos. Assim, vamos interligar as questões das DCNs com a educação a distância (EAD) e o uso da tecnologia”, destaca Almir.

Formados sob a luz de um novo paradigma, os engenheiros, por sua vez, terão condições de transformar a atuação profissional na área. “O uso das tecnologias educacionais e as novas matrizes curriculares podem abrir a mente do aluno para que consigam trabalhar e projetar de uma maneira diferente”, afirma Vilela, da Unilavras.

Ele cita um exemplo da Engenharia Civil. “O mercado da construção civil costuma ser engessado em razão da cultura brasileira de utilizar sempre os mesmos materiais e métodos construtivos. Por que não mudar? Por que não pensar de uma forma diferente e aplicar novos conceitos?”.

Além disso, a formação por competências deve agregar habilidades de comunicação e trabalho em equipe, pouco associadas à profissão. “Aquele engenheiro que se contentava em apenas ficar atrás da bancada ou computador, trabalhando isolado, é coisa do passado”, completa Carvalho, da Eniac.

Fonte: Desafios da Educação

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