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Educação | 21 de setembro de 2020
Única saída para a rede pública é não reprovar ninguém, diz Jair Ribeiro
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Única saída para a rede pública é não reprovar ninguém, diz Jair Ribeiro

O presidente da ONG Parceiros da Educação e diretor da Casa do Saber, Jair Ribeiro, 60 anos, diz que a única solução para a rede pública de ensino é não reprovar nenhum aluno em 2020. Motivo: a punição poderá causar alta evasão escolar no pós-pandemia.

“A perda que a gente está tendo em termos de conhecimento e de aproveitamento escolar dos alunos ao longo da quarentena é gigante. Deve promover 1 processo de evasão de 25% a 30% -em algumas localidades mais vulneráveis, percentual ainda maior. Isso precisa ser combatido.”Na avaliação de Ribeiro, as secretarias de educação precisam fortalecer programas de nivelamento, reforço e recuperação dos estudantes. “A recomendação que se faz no Brasil e no mundo inteiro é a progressão continuada”.

Empresário e especialista em educação, Ribeiro deu entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, apresentador do Poder em Foco . O programa é uma parceria editorial do SBT com o jornal digital Poder360.

Ribeiro explica que a pandemia expôs a alta desigualdade social no Brasil. Muitos alunos não conseguem nem sequer ter acesso às aulas remotas por falta de acesso à internet.

“É 1 ano em que avançamos muito pouco. Quem sabe até retroagimos. Pesquisas indicam que as crianças, em 1 período tão longo sem aula, perdem 1 pouco a proficiência.”

Para o especialista, a melhor forma de recuperar o tempo perdido é tornar o currículo escolar mais enxuto. O objetivo a partir de agora deve ser focar nas habilidades estruturantes: matemática e português.

Outra meta a ser perseguida é trabalhar o ano escolar de 2020 em conjunto com o de 2021.

“O programa de educação continuada existe na grande maioria das redes estaduais e municipais. Aqui em São Paulo, é 1 procedimento usado há muito tempo [.] é 1 processo natural. Não existe nenhuma regulamentação. Na rede privada é diferente. Cabe a cada escola definir a sua política pedagógica.”

A pandemia forçou pais, estudantes e professores a usarem a tecnologia para o ensino remoto. “É 1 legado importante. Quebraram-se algumas barreiras. Às vezes, alunos e professores tinham 1 desconhecimento grande no uso da tecnologia. Ninguém sério na educação acha que tecnologia vai resolver todos os problemas da educação ou substituir o professor. Isso está ultrapassado em termos de conceito. Porém, a tecnologia pode ser usada muito bem como reforço”, diz.

Na análise de Ribeiro, a educação à distância também proporcionou a modernização de diversos processos que ficarão para o pós-pandemia. Avalia que o ensino híbrido (presencial e remoto) tende a ficar mais popular. Deu como exemplo o Innova Schools , no Peru. O projeto oferece aos estudantes de 3 a 4 aulas presenciais por semana. Depois, os alunos fazem reforço da mesma matéria no computador via programas adaptativos.

“Serve para ensinar a mesma coisa que ela aprendeu na sala de aula de uma forma diferente. A tecnologia como reforço é bastante eficiente. Com a pandemia, a gente conseguiu quebrar algumas barreiras de resistência”, diz.

Indagado se as aulas presencias deveriam ser retomadas, Ribeiro respondeu que o assunto é controverso. “Tem a questão de as crianças contaminarem pessoas com comorbidade ou idosas”.

De fato, o retorno às aulas pode expor ao contágio 1 grupo de brasileiros mais vulneráveis ao coronavírus. Dados do IBGE mostram que 12% dos brasileiros com até 17 anos moram com alguém de 60 anos ou mais, faixa etária em que se corre maior risco de morte pela covid-19. São 6,2 milhões de pessoas do chamado grupo de risco em contato diário com jovens que podem ser vetores do vírus.

“Porém, a perda que a gente está tendo em termos de conhecimento e de aproveitamento escolar dos alunos ao longo do período de quarentena é gigante”, diz o especialista. “Defendo abrir as escolas para que, por adesão, tanto as crianças como os professores que puderem, voltem às aulas. Essa é a minha posição pessoal. De novo, é muito complicado. A saúde tem predominância nesses aspectos. É uma situação nova que a gente está vivendo”.

O debate sobre como e quando deve ocorrer a volta às aulas é feito em todo o mundo. Monitoramento da Unesco mostra que a pandemia impacta 60% da população estudantil do planeta. Ou seja, mais de 1 bilhão de crianças e adolescentes.

Esse percentual chegou a 90% em meados de abril. Atualmente, parte da Europa, Ásia e Estados Unidos reabriu as escolas.

Ribeiro avalia que, se for bem gerenciado, o orçamento da educação é suficiente para colocar todos os alunos no ensino em tempo integral em até 20 anos. O governo deve aplicar R$ 108 bilhões no setor até o fim deste ano.

“O que vai acontecer ao longo de 20 anos? Vai ter uma queda demográfica. Vai ter menos alunos e você consegue aumentar o investimento per capita. Teoricamente, o Brasil vai crescer e haverá 1 crescimento da renda per capita ao longo desse período. Vamos supor crescimento de 0,5% a 2%, nada excepcional. Diminuindo também o número de alunos por escola, você consegue colocar no orçamento atual o número de garotos em escolas de tempo integral”, diz.

Ele dá como exemplo as escolas de período integral baseadas no modelo desenvolvido em Pernambuco pelo ICE (Instituto de Corresponsabilidade Educacional). O projeto foi criado em 1999 pelo engenheiro Marcos Magalhães, então presidente da Phillips brasileira.

Ribeiro conta que hoje 55% da rede pernambucana de ensino aderiram ao modelo. Isso ajudou o Estado a subir no Ideb , índice que mede a qualidade da educação básica. Pernambuco tem 1 orçamento baixo se comparado com outros Estados.

“Existe cartucho de prata. Pelo menos é o que a gente enxerga que pode ser transformacional no Brasil. Porque há uma série de medidas que as secretariais estaduais e o MEC [Ministério da Educação] poderiam adotar.”

O presidente Jair Bolsonaro defende 1 modelo de educação com maior influência de colégios cívico-militares. Há 54 unidades implantadas. A meta é dobrar o número para 108 no ano que vem.

Indagado sobre o que acha da ideia, Ribeiro respondeu que o número não é significativo: “Não move em nada a agulha da educação pública”.

Ribeiro classifica o Escola sem Partido como uma ” bobagem sem tamanho”. O projeto teve uma comissão especial criada há poucas semanas, mas não tem previsão de ser votado.

“Imagina o processo de controlar isso? Vai gerar uma caça às bruxas. Vai gerar 1 desconforto enorme para o professor. Nós precisamos é valorizar o professor. A defesa vem em cima de questões anedóticas: ‘Porque minha filha ouviu sei lá o que’. Até pergunto para o interlocutor: ‘Quantas pessoas você acha que estão fazendo campanha marxista nas salas de aula?’. Chuta 1 número: ‘5.000 professores?’. Sabe quantos professores existem no Brasil? Acho que são 3 milhões. É uma coisa tão pouco significativa do ponto de vista educacional que tira o foco das questões importantes.”

Ribeiro defende maior participação da sociedade civil no ensino público. “O problema é tão crítico e tão central para o país que não pode ficar só na mão do Estado. São questões de médio-longo prazo. Normalmente, o governante olha 1 período de 4 anos, o que é pouco”, diz.

“A escola em tempo integral, por exemplo, é uma das grandes políticas que, se a gente tiver muitos empresários e formadores de opinião defendendo, fica mais difícil para os governadores recuarem do programa.”

Para mudar esse ciclo, Ribeiro criou o Parceiros da Educação há 16 anos. A ONG dedica-se a reunir escolas estaduais de São Paulo em parceria com a sociedade civil (pessoas físicas e jurídicas) para patrociná-las. O objetivo é potencializar o rendimento escolar dos alunos.

Primeiro, é feito 1 diagnóstico da unidade de ensino. Aplica-se uma metodologia focando na gestão, formação de professores e inserção da escola na comunidade. Com o apoio financeiro dos parceiros, são feitas melhorias na infraestrutura da escola. ” Nossa atuação dura de 4 a 6 anos. O ideal é que, depois, a própria sociedade absorva”.

Ribeiro conta que 600 unidades de ensino e 700 mil alunos já foram beneficiados pela iniciativa. Segundo ele, o programa melhora os índices educacionais, em média, de 30% a 35% nos primeiros 3 anos. “Isso é bastante. É quase 1 ano letivo a mais no ciclo escolar”.

Depois de 5 a 6 anos, as escolas têm que caminhar “com as próprias pernas”. Segundo Ribeiro, apenas 13% das escolas regrediram nos índices educacionais depois da saída da ONG. “A grande maioria continua crescendo”.

Atualmente, o trabalho dos Parceiros da Educação beneficia 407 escolas.

O presidente do Parceiros pela Educação diz ser uma excelente solução a maior integração do ensino médio com o ensino técnico.

“Hoje, 17% dos alunos que saem das escolas de ensino médio vão para a faculdade. 83% não vão para o ensino superior e eles vão fazer o quê? Esses garotos precisam ser formados para ter uma profissão.”

De acordo com Ribeiro, o valor agregado do ensino superior está cada vez menor.

Há anos as faculdades são criticadas por supostamente não preparar adequadamente os estudantes para as habilidades práticas que o mercado de trabalho procura.

“Não sei se tem tanto sentido passar 4 anos estudando administração de empresas, para fazer o quê depois? A tendência mundial é ter uma formação gradual. Está tudo mudando tão rápido. Não adianta ficar 4 anos e depois não saber exatamente o que vai fazer” , diz.

Indagado se é a favor da cobrança de mensalidade em universidades públicas, respondeu que sim. Mas que o tema deve ser debatido.

“Não sou expert no assunto, mas o que eu ouvi é que não seria uma grande diferença no orçamento. É 1 assunto que não pode ser tratado de uma forma tão simplista. Tem várias questões envolvendo isso.”

A Constituição de 1988 define os gastos mínimos da educação básica no país. “Pelo histórico do Brasil de não priorizar essas questões de impacto mais de longo prazo, que não seja tangível, não é uma ponte que constrói e o sujeito leva voto . Quem sabe a questão de incluir na Constituição e definir percentuais seja a melhor das piores soluções”.

Atualmente, o país gasta no segmento cerca de 6% do PIB (Produto Interno Bruto) por ano. O percentual é superior à média dos 36 países que compõem a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 5,5%.

Segundo o especialista, todo investimento extra no setor é positivo, já que o país tem deficit no sistema educacional. De acordo com ele, o Brasil começou a gastar esse percentual há 15 anos. Os países da OCDE, há cerca de 50 anos . “Temos que recuperar. É normal ter esse investimento maior em 1 período de recuperação”.

Ribeiro defende que o foco seja o ensino básico, que é a pré-escola, o fundamental e o médio.

Para os próximos anos, está otimista. Cita alguns avanços no setor, como a prorrogação do Fundeb , fundo de desenvolvimento da educação básica do país, que aloca recursos do governo federal para Estados e municípios.

“O Fundeb definiu critérios bastante positivos. Atende de fato à necessidade. O Fundeb define mais ou menos R$ 5.500 por aluno por ano. É 1 pouco mais baixo? É. Acho que para 1 aluno de tempo integral, seria necessário 20% a mais do que isso, dependendo do modelo. Mas é possível em 1 período mais longo fazer esse tipo de programa, universalizar. Não adianta nada fazer uma escola em tempo integral para poucos alunos. Isso eu sou contra.”

Ribeiro afirma que o Brasil pode ter aumento substancial no PIB ao investir na educação. Ele cita estudo do professor de Stanford Eric Hanushek. O pesquisador concluiu que uma alta de 100 pontos no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) está associada a 1 incremento de 2 pontos percentuais no PIB.

O último relatório do Pisa , de 2018, mostra que o Brasil está entre os países com piores avaliações , dentre 79 nações.

A pontuação média em leitura nos países da OCDE foi de 487 pontos. Em matemática e ciências, foi de 489 pontos. O Brasil ficou com 413 pontos em leitura, 384 em matemática e 404 em ciências.

“O impacto econômico e financeiro que a educação poderia trazer é barato em questão de investimento. Para a sociedade, é infinitamente maior”, afirma.

“A situação está nesse nível de hoje muito em função da falta de priorização dos governos estaduais, municipais e federal em relação ao tema. Esse problema da pandemia e da recessão que a gente vai viver terá reflexo gigante na desigualdade. Hoje se fala de saúde. Saindo da pandemia, o grande tema vai ser a desigualdade social. A única forma de quebrar o ciclo vicioso da desigualdade social é a educação.”

Fonte: Poder 360

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