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Educação | 15 de outubro de 2020
A arte de ensinar na pandemia
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A arte de ensinar na pandemia

No Dia do Professor, o Correio conta histórias de mestres que superaram os desafios impostos pela necessidade do isolamento social e se reinventaram

Este foi um ano desafiador para os professores. Desde março, profissionais de todo o Brasil tiveram que se reinventar para chegar aos alunos, cada um de sua casa. Mesmo aqueles sem nenhuma experiência com aulas a distância encaram a árdua missão. No Dia do Professor, o Correio reuniu histórias de educadores que se destacaram nas aulas remotas, em escolas do Distrito Federal. Confira!

Tarefa especial

A pandemia não poupou nenhum segmento da educação, todos tiveram que lidar com o fechamento repentino das escolas. Na educação especial, professores que já se desafiavam diariamente para ensinar tiveram que se reinventar. Um deles é Maria Cristina da Silva de Jesus, 43, que leciona para alunos com transtornos do espectro autista no Centro de Ensino Fundamental 101 do Recanto das Emas. No decorrer dos 22 anos de profissão, ela se apaixonou e se especializou pela área. Desde 2012, atua continuamente na mesma turma para alunos com Transtornos Globais do Desenvolvimento no CEF 101. A pandemia, porém, chacoalhou a rotina da professora e a forçou a reformular o método desenvolvido nesses oito anos. “Eu tive, primeiramente, que conquistar a família, falar que era possível e que faríamos de tudo para que eles não desistissem”, recorda. Apesar do esforço em reter a atenção dos alunos, logo nos primeiros dias, a professora notou que não teve sucesso e reformulou seus métodos: começou a produzir vídeos curtos, de, no máximo, três minutos e meio, e que tivessem músicas. Também separou horários para atender cada aluno individualmente por videochamada. “O modelo remoto é difícil e mais complicado? Sim. É um desafio porque a gente saiu da zona de conforto, mas valeu a pena”, afirma a professora.

Sala de aula dentro de casa

O fechamento das escolas, mesmo necessário, pegou em cheio a educação infantil e os anos iniciais do ensino fundamental. A professora Aldecy Passos, 45, da Escola Classe 410 da Asa Sul, ressalta que a medida interrompeu, por um momento, o primeiro contato dos pequenos com a leitura e a escrita. Foi desafiador, mas a professora conquistou bons resultados com alunos do1º ano do ensino fundamental. “Imagine você pegar 23 crianças que nem mesmo conhecem as vogais e ter de ensiná-las on-line?” A professora conta que o trabalho foi árduo para que elas não perdessem o ano letivo. Junto à escola, Aldecy elaborou kits com materiais escolares como massinha, cadernos e lápis que os pais puderam buscar na escola. Contudo, a docente destaca a dificuldade no acesso à plataforma por muitos estudantes. Para contornar, ela optou pelo envio das atividades e explicações para o número de WhatsApp dos pais. “Mesmo no formato remoto, eu vejo como meus alunos têm crescido e aprendido. Eu sempre falo para os pais que não é um ano perdido para os nossos pequenos. O máximo que eu puder ajudar, eu vou ajudar.”

Alfabetização a distância

Embora a Escola Classe Núcleo Rural Córrego do Atoleiro, em Planaltina, seja classificada pela Secretaria de Educação como urbana, a professora Caroline dos Anjos, 34, destaca que parte dos alunos lida com questões de área rural. A falta de acesso à internet e equipamentos é a realidade de muitos. Aficionada por ensinar desde os 14 anos, quando dava aulas na igreja, Caroline desenvolveu gosto pela alfabetização de crianças. Atualmente, leciona para o 2º ano do ensino fundamental. “Eu amo o que eu faço”, resume. No entanto, tem se desdobrado para alfabetizar os alunos a distância e encontrou uma solução criativa no uso de leituras diversificadas. Logo na semana de ambientação, entre 22 de junho e 10 de julho, percebeu baixo engajamento dos estudantes. Foi no incentivo à leitura que enxergou a saída. “Mesmo que passem de ano com algumas dificuldades, tendo uma leitura fluente, eles conseguirão mais facilmente alcançar os objetivos”, ressalta. No Projeto de Leitura Desafio Diário, a cada dia, ela disponibiliza na plataforma de aulas ou envia por WhatsApp um texto para que os alunos apresentem a leitura por meio de vídeo, áudio gravado ou ligação telefônica. Depois da iniciativa, dos 26 presentes na turma, 20 são assíduos.

Prover primeiro o básico

“Eu sempre acreditei que a educação pudesse trazer respostas melhores para o mundo. Então, sempre fui muito de acreditar que a gente consegue mudar para melhorar as coisas”, relata a professora Thailise Maressa, 33, do Centro Educacional (CED) Fercal, uma das regiões administrativas com menor renda per capita do DF. As dificuldades eram diárias no modelo presencial e não foi diferente durante as aulas remotas. “A Fercal tem muitas características de zona rural. Então, existem locais em que a comunicação é escassa ou inexistente”, conta a professora de língua portuguesa. Além disso, a escola teve que lidar com famílias com condições financeiras impactadas pela pandemia. “Não tínhamos como exigir que o ensino fosse prioridade em uma família que não tem sequer o alimento”, relata. Professores e a direção chegaram a fazer campanha para arrecadação de cestas básicas. As dificuldades não param por aí, para prender a atenção dos alunos, até peruca e chapéu de bruxa ela vestiu, enquanto ensinava transitividade verbal. “A pandemia trouxe à tona diversas fragilidades da educação, a gente viu essas deficiências bem na nossa cara.”

Gincana do “boa tarde”

A professora Lourdes Cosmo, 57, que dá aulas para 5º ano no Centro de Ensino Fundamental Cerâmicas Reunidas Dom Bosco, atualmente se divide entre a plataforma, em que dá aulas para oito alunos, e o WhatsApp, para mais seis estudantes. Ela conta, orgulhosa, que, mesmo sendo uma escola na região rural de Planaltina, atingiu 100% dos alunos participando dos projetos que desenvolve remotamente. Lourdes atua há 25 anos na educação, já poderia ter se aposentado, mas decidiu que não ia ficar fora da sala de aula após ganhar o Prêmio Professores do Brasil, edição de 2018. Quando se deparou com o modo remoto de dar aulas, ficou receosa e se questionou sobre a aposentadoria. Mas enfrentou: “No começo, foi muito desafiador, porque eu não tinha familiaridade às tecnologias e não sabia nem o que era a plataforma. Mas fui aprendendo na raça”. Na plataforma oferecida pelo GDF, existe um mural que professores podem desenvolver suas atividades e alunos fazerem postagens. Foi nesse lugar que a professora quis fazer a diferença. Lançou o desafio Gincana do Boa tarde, em que, a cada dia, um aluno, professor ou convidado, fica encarregado de elaborar uma mensagem e postar. O que começou com um incentivo a dizer “boa tarde”, virou espaço pedagógico. O número de interações saltou. “Eu trabalho na plataforma conteúdos que eles vão usar para a vida toda, eles são estimulados a serem protagonistas.”

Jogos nas aulas remotas

A professora Laís Moreira Silva, 31, do Centro Interescolar de Línguas do Guará (Cilg), conta que o período de adaptação para aulas remotas foi desafiador. Ela precisou motivar e, ao mesmo tempo, acalmar os alunos que enfrentavam quadros de ansiedade ou que tiveram que lidar com perdas de amigos e familiares. Mostrar-se disposta a apoiá-los com suporte tanto tecnológico, quanto emocional foi a chave que a professora encontrou para que eles se acostumassem e se engajassem com as aulas remotas cada vez mais. Além disso, apostou no uso de jogos para tornar as aulas ainda mais instigantes. “O ensino remoto é um desafio muito maior do que o presencial. Os alunos se dispersam com mais facilidade, se cansam mais rapidamente e acabam perdendo o interesse com o passar das aulas. Foi aí que a ideia de jogos surgiu”, ressalta. Além dos jogos, ela viu nas aulas on-line uma oportunidade para utilizar materiais que são desenvolvidos com conteúdos presentes na cultura pop, como filmes, séries e músicas. “Muitas vezes, temos limitações em utilizar esses materiais em uma sala de aula tradicional, mas a utilização desses conteúdos com os meios tecnológicos disponíveis no sistema de educação a distância é praticamente ilimitada”, destaca.

Renovar-se depois de anos

A professora do Centro Educacional da Criança do Gama Dulce Helena da Silva, 51, contabiliza 28 anos dando aulas. No entanto, o ensino remoto foi novidade na sua carreira. Ela não encontra outra palavra a não ser “desesperador” para definir o processo de adaptação. “Por mais que a gente tenha acesso à tecnologia, muitas coisas o professor não tem domínio, mas tivemos que nos adequar de maneira bem rápida”, lembra Dulce. Às vésperas da aposentadoria, a professora topou o desafio, mas se viu nervosa diante da câmera do computador. Dulce conta que lidar com a possibilidade do que vai pensar quem a observa a deixava extremamente apreensiva. “Só de imaginar dava um frio na barriga, um desespero e uma vontade de chorar. Era tudo muito novo.” Mas, aos poucos, e com as orientações da gestão, adaptou-se. “Agora, depois de muito tempo, a rotina está mais tranquila e acredito que a gente tem que se reinventar todos os dias”, ressalta. Olhando em retrospecto, ela considera que valeu a pena o tortuoso caminho da inovação. “Nós não podemos ficar parados no tempo, temos sempre que estar nos reinventando.”

Adaptação na educação superior

O professor da área de física do Instituto Federal de Brasília (IFB) Eryc de Oliveira Leão, 34, considera que diversas dificuldades ainda não foram superadas e que novos desafios sempre surgem durante as aulas remotas. O professor pensa que a forma como as relações vêm sendo intermediadas pela tecnologia mudou a dinâmica do contato entre professor e aluno. “Quando eu estava em ambiente presencial, eu não tinha essa dificuldade (de entender o aluno, porque era visível quem estava bem e quem estava mal, era só ler o rosto e a expressão da pessoa”, pondera. Ele ressalta que entre as principais dificuldades estão os desafios emocionais de muitos alunos. Ele tem feito o possível para compatibilizar o conteúdo com a nova rotina. Estudantes do primeiro semestre têm maior dificuldade de se adaptar ao curso. “Eu estou contornando essa dificuldade por meio de um contato semanal, em que eu dou aulas para eles de forma síncrona e também gravada”, diz. No caso de estudantes em semestres mais avançados, ele se dedica à produção de material didático como guias de estudo e também tornou os prazos e as avaliações mais flexíveis.

Sentimentos compartilhados

A professora Sandra Lino de Carvalho, 43, resolveu levar a bagagem que tem com o tema de Sentimentos e Oralidade para a Escola Classe 419 de Samambaia Norte. Desde o período em que lecionava em modo presencial, Sandra valoriza esse tema. Agora, no período de pandemia, aposta que trazer a temática dos sentimentos e da expressão para as aulas on-line pode ser uma ferramenta para compreender a situação emocional dos estudantes. “Eu percebi (entre os estudantes) muita ansiedade e tristeza, situações de angústia. Mas sempre tento passar algo de bom para eles e explico que (o isolamento social) é para o nosso bem, mas que virtualmente a gente está próximo”, ressalta a professora do 2º ano do ensino fundamental. A característica de querer doar carinho e afetividade foi o que levou Sandra ao magistério. Já se passaram 21 anos de profissão, mas estes ainda são traços que ela valoriza e busca passar para os estudantes.

Fonte: Correio Braziliense

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