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Educação | 14 de janeiro de 2021
2020: o ano em que descobrimos a verdadeira importância da educação
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2020: o ano em que descobrimos a verdadeira importância da educação

O ano de 2020 foi verdadeiramente difícil. A pandemia de COVID-19 trouxe consigo uma série de consequências que tangem diversas áreas da vida, sendo uma delas a educação. Os estudantes em geral sentiram o forte impacto da pandemia, e tiveram que recorrer a formas alternativas de aprendizado, em meio a anúncios e adiamentos de uma reabertura.

No início da pandemia, em meados de março, escolas e universidades pelo mundo inteiro começaram a fechar as portas, considerando os riscos trazidos pela aglomeração. No que diz respeito ao Brasil, ao longo de meses conturbados, o Ministério da Educação (MEC) já tentou fazer a reabertura acontecer, mas voltou atrás na decisão. Algumas capitais, como Manaus, também se viram diante de grandes desafios ao tentar a retomada das atividades.

De acordo com Daniele Saheb, coordenadora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), de uma forma geral, a educação precisou se reinventar para atender uma demanda que trouxe desafios enormes. Antes a escola era toda organizada presencialmente, tanto a educação básica quanto superior, e no momento que isso foi interrompido e se ofereceu a possibilidade do ensino remoto não foi simples. As escolas tiveram que pensar em como fazer a mudança , conta.

Sobre as mudanças proporcionadas pela pandemia, Daniele destaca a questão tecnológica, pois além da organização da instituição, os estudantes precisaram ter acesso a computador e a internet para assistir às aulas e fazer as atividades. Além disso, a pedagoga conta que a instituição precisou se organizar porque o ensino mudou. Tivemos que pensar: uma coisa é você ter um excelente professor, que tem boa qualidade de ensino no formato presencial; mas e nas aulas remotas, como vai ficar? . O quanto as instituições e os professores se debruçaram sobre isso, estudaram, ainda é pouco conhecido , afirma.

Para Daniele, houve muito estudo e reflexão para entender quais as características do ensino remoto, o tempo da aula online, os processos cognitivos, como se deve pensar a metodologia na aula remota, como deve ser a avaliação, entre outras coisas. Foram mudanças importantíssimas para o processo de pensar a aula. Com isso, a educação evoluiu muito em relação à tecnologia, apesar das fragilidades. Surgiram muitas possibilidades a partir do ensino remoto que devem continuar sendo pensadas, pois acredito que, após a pandemia, a educação não será mais a mesma.

Na opinião da coordenadora do curso de pedagogia, a pandemia reforçou muito a questão de que a educação não significa apenas transmissão de informação ou quantidade de conteúdo aprendido pelo estudante. Agora, temos ainda mais motivos para entender e consolidar a ideia de que a educação significa trabalhar com questões que transcendem, como o pensamento, a reflexão, o raciocínio, a criatividade, a solidariedade. A educação é também preparar os estudantes para se relacionarem com incertezas, para que tenham condições de lidar com problemas não esperados e que tenham criatividade para resolução e enfrentamento de adversidades , reflete.

Alfredo Freitas, diretor de Educação e Tecnologia da AmbraUniversity, tem mais de 15 anos de experiência com essa relação entre a tecnologia e a educação. Para ele, a internet ampliou as formas de aprendizado, e a tecnologia na educação apresenta diversas vantagens em relação ao ensino presencial, como: facilidades de locomoção, flexibilidade de horário, maior inclusão de pessoas com necessidades especiais, ampliação das formas de aprendizados, maior flexibilidade metodológica, possibilidade de diversidade geográfica entre professor e aluno, maior controle e verificação prática do que ocorre em sala de aula, maior conexão com as ferramentas e os métodos de trabalho da atualidade.

Por outro lado, questionado sobre consequências negativas dessa ascensão da educação à distância, Alfredo aponta que embora muitos jovens consigam até melhor do que nós, adultos, se relacionar via internet, faz bem para crianças e adolescentes estarem em grupos fora da sala de aula nos demais espaços da escola ou faculdade. O grande risco social da educação a distância é que a tentação de baixar os custos pela redução da dedicação dos docentes para cada aluno é grande a acaba levando muitas instituições a usarem métodos péssimos quando avaliamos a qualidade de aprendizado , disserta o diretor.

Para entender o ponto de vista dos estudantes, conversamos com a universitária Steffany Rodrigues, que, por conta da pandemia, passou a assistir às aulas de seu curso de pedagogia da Universidade de Brasília (UnB) remotamente. Durante essa pandemia nos deparamos com o Ensino Remoto Emergencial, que é diferente do EaD, e ele nos mostrou como nossa educação não estava preparada para a introdução das mídias tecnológicas. Acho que foi exatamente isso que mudou ao decorrer desse ano, quando professores, estudantes e toda a comunidade escolar precisou se adaptar e aprender a utilizar esse meio para que o ano não fosse cancelado , relata.

No entanto, apenas pelo fato de que a tecnologia se apresenta como uma aliada em meio a esse caos proporcionado pela pandemia, não quer dizer que a adaptação tenha sido fácil. Houve manifestação através dos estudantes para que a UnB não aderisse ao ensino remoto emergencial no primeiro semestre do ano, afinal, muitos alunos ficariam fora disso por não terem aparelhos tecnológicos necessários e nem internet. Mesmo voltando nesse segundo semestre, sentimos que nem dentro da universidade estávamos preparados. Muitos estudantes (incluindo eu) tiveram dificuldade para participar de aulas síncronas, por exemplo , conta Steffany.

Já na visão de Denise, o que tivemos neste ano trabalhando com o ensino remoto difere muito do que é o EAD no Brasil, e as instituições de ensino fizeram um trabalho individualizado, com turma, planejamento, professor disponível no dia e horário marcado, entre outras coisas, o que foge do processo do EAD. Apesar disso, acredito que a própria concepção das possibilidades que existem de trabalhar remotamente se ampliou e acabou facilitando muita coisa. Nesse momento, tivemos a oportunidade de trabalhar com pessoas do outro lado do mundo, por exemplo, coisa que não fazíamos antes. Com tudo isso, tivemos muito aprendizado que ficará no pós-pandemia , analisa.

No entanto, a especialista destaca a dificuldade de compreensão do que o que estava sendo feito não era EAD. Os estudantes que já passaram pelo processo de EAD entendem isso com mais facilidade, mas os demais acreditam que é a mesma coisa, que se cursa EAD pagando uma mensalidade presencial. Porém, todo o sistema de organização da instituição é o mesmo do presencial e acaba sendo muito mais trabalhoso remotamente , explica.

Denise conta que, por parte dos estudantes, demorou um pouco para entenderem que tinham que assistir à aula no horário, que tinham tarefas, que o professor estaria presente e que continuariam juntos, apesar da distância física. Já para os professores, houve uma necessidade de preparo. Acontece que os professores estudaram muito, fizeram cursos sobre o ensino remoto e a modalidade EAD, sobre como adaptar o plano de aula que já estava pronto, e passaram o ano todo estudando, repensando e participando de atividades formativas para amadurecer o processo.

Em agosto, ao fazer uma análise sobre o impacto da reabertura escolar , conversamos com a presidente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), Rozana Barroso, que destacou um grande obstáculo em meio ao ensino remoto de 2020: a evasão escolar. É uma coisa que nos preocupa muito. É uma coisa que a nossa luta pela educação tenta combater a todo custo, porque a educação tem o seu papel. Não existe debater um país que supere a pandemia do coronavírus sem falar da educação valorizada. Em especial a pública , disse, na época.

A pandemia de COVID-19 trouxe diversos impactos para a área da educação, e a reabertura das escolas e das universidades tem sido alvo de muita análise, com frequentes anúncios de datas e de adiamento. Isso aconteceu tanto aqui no Brasil quanto nos outros países.

Um exemplo disso é Israel. Em maio, quando o país em questão tinha menos de 100 novos casos por dia, todas as escolas foram reabertas. No que isso resultou? Em pouco tempo, infecções por COVID-19 foram registradas em uma unidade de Jerusalém, e rapidamente se espalharam. O número de contágios diários subiu e as escolas foram fechadas novamente. Nos EUA, em agosto, seis dias depois de reabrir as escolas, 826 estudantes e 43 professores do norte da Geórgia foram encaminhados para quarentena de duas semanas após novos casos de COVID-19.

No Brasil, o Amazonas foi o primeiro estado a retomar as atividades presenciais. Em Manaus, 110 mil alunos da rede pública estadual retornaram às aulas. Não deu nem um pouco certo: a Associação Sindical dos Professores de Manaus (Asprom) apontou que 50 profissionais haviam sido diagnosticados com a doença – e professores da região chegaram a fazer manifestações contra o retorno das aulas presenciais.

Em São Paulo, a primeira data em pauta foi 7 de outubro, mas foi adiando com o decorrer da situação. Na última quinta (17), o Governador João Doria anunciou o retorno gradual às aulas presenciais para o ano letivo de 2021. O decreto autoriza a retomada das aulas em todas as fases do Plano São Paulo. Sabe o que isso significa? Que as escolas públicas e particulares poderão continuar abertas mesmo se estiver na pior fase da pandemia, a vermelha.

“A escola não pode mais fechar. Neste momento de pandemia, as famílias precisam entender sobre o quanto é cada vez mais fundamental e importante ter os seus filhos frequentando a escola. Para continuarem a aprendizagem e serem acolhidos em vários aspectos. Principalmente, emocionalmente”, defendeu o Secretário da Educação de São Paulo, Rossieli Soares, na ocasião.

E nem as universidades escaparam dessa questão da reabertura. No início de dezembro,o Ministério da Educação (MEC) determinou que instituições federais de ensino superior voltassem às aulas presenciais a partir de 4 de janeiro de 2021. Entretanto, o ministério recebeu críticas por parte das universidades, que se recusaram a voltar às aulas presencialmente. Isso fez com que recuasse e decidisse revogar a portaria em que determina esse retorno das aulas presenciais. A ideia do ministério agora é liberar o retorno às aulas somente quando as instituições estiverem confiantes de que isso possa ser feito com segurança.

Na visão de Alfredo Freitas, investimentos em capacidade tecnológica e metodológica são indispensáveis para uma boa formação dos estudantes. O ensino online pode ser realizado de diversas formas em diversas combinações metodológicas e a boa e adequada escolha de processos, métodos e técnicas é o que fará a diferença . Ele afirma que a pandemia foi responsável por antecipar e acelerar essa realidade de ensino remoto.

Já a coordenadora do curso de pedagogia Daniele Saheb analisa que é muito cedo para dizer se teremos mudança da concepção de educação depois da pandemia. Mas espero que as pessoas entendam a importância da educação, que não é só transmissão de conteúdo. É importante que se compreenda o amplo papel da educação e que ela seja valorizada. A educação propicia ao sujeito uma compreensão crítica, reflexiva e contextualizada do mundo. Por isso, espero que a educação seja valorizada e ainda sob essa perspectiva , opina.

A especialista descreve a educação como um processo mais amplo do que o ensino e que deve oferecer ao sujeito condições de se desenvolver cognitiva e socialmente, entre outras dimensões, para que ele possa entender a sua realidade de forma crítica, reflexiva, contextualizada e responsável, para assim poder fazer escolhas conscientes e exercer a sua cidadania em prol da coletividade.

Steffany Rodrigues acredita que a educação é transformadora, e que é através dela que se formam cidadãos politizados e de consciência de seus atos, por isso é tão importante na vida de todos, e por isso devemos lutar por uma educação de qualidade. Ainda vamos ver muita coisa acontecendo nesse processo de educação dentro da pandemia, e que com certeza afetará os anos seguintes , estima a universitária.

E de fato, ainda não estamos nem perto de concluir essa etapa difícil. No entanto, podemos observar que a sociedade levantou os olhares para a educação e para a sua verdadeira importância.

Fonte: CANAL TECH – Com informações de The New York Times , CNN , Governo de São Paulo

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