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Educação | 18 de janeiro de 2021
Feevale inaugura mostra coletiva online sobre ausência física e presença digital
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Feevale inaugura mostra coletiva online sobre ausência física e presença digital

Consequência de um projeto acadêmico da artista France Amaral e da designer Sheisa Bittencourt, doutorandas do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Cultural e Inclusão da Universidade Feevale, tem inauguração nesta segunda-feira, às 18h, a exposição virtual Presença na ausência . As pesquisadoras são irmãs e há anos militam por inclusão social, por isso, a mostra online – que pode ser acessada até 18 de junho no site presencanaausencia.com.br – traz uma preocupação ímpar com a acessibilidade.

Com a proposta de pensar a pandemia da Covid-19 pela arte, o diferencial do evento, apresentado pela Feevale, é que realmente todos os públicos estão convidados: pessoas com deficiência visual, auditiva e com mobilidade reduzida poderão vivenciar a exposição por meio de audiodescrição, Libras, legendas ou utilizando um leitor de tela. Para garantir a acessibilidade, foi montada uma equipe multidisciplinar com profissionais de arte, TI, psicologia, design e arquitetura, entre outras áreas.

O grupo trabalha desde setembro de 2020 para criar um modelo em 3D do Espaço Cultural Feevale. Consultores cegos também têm orientado cada etapa do trabalho.

Presença na ausência exibe cerca de 50 obras de 22 artistas – além de arte digital, há fotografia, vídeo, pintura, desenho, bordado e colagem em versão virtual. Os trabalhos refletem diferentes aspectos da vida durante a pandemia, como a solidão e as novas formas de estar junto, evocando a ausência física e a presença digital. Uma fotografia de Carlos Donaduzzi, por exemplo, exibe uma mesa com café da manhã, mas a única pessoa à vista está no monitor de um tablet. Magna Sperb fala sobre saudade no trabalho inédito Teu cheiro em mim , no qual mistura fotos de família com os frascos de perfume que eram usados por sua mãe.

Além desses e de outros nomes de destaque na arte no Rio Grande do Sul, a exposição inclui a paranaense Mariana Corteze, a paulista Marcela Novaes, a canadense Piper Maru, ochinês Zhang Qinzhe e os portugueses José Maçãs de Carvalho e Pedro Santos. Todos os artistas gravaram vídeos breves sobre as obras, material extra que estará disponível no hotsite da exposição .

Um dos trabalhos apresentados nesta seleção que ganhou nova significação após a quarentena imposta pela circulação do vírus é o projeto fotográfico Conhecidos de vista , da artista porto-alegrense Letícia Lampert. Para este trabalho – desenvolvido para seu mestrado em Artes Visuais na Ufrgs, finalizado em agosto de 2013 -, ela visitou mais de 50 apartamentos nos bairros centrais de Porto Alegre, onde as ruas, com edifícios em ambos os lados, tendo as janelas próximas demais, configuram uma situação de “confronto” de miradas.

A versão em vídeo que é exibida nesta coletiva virtual também foi exposta em 2013 no Macrs (Sala Augusto Meyer da Casa de Cultura Mario Quintana), dentro do Prêmio IEAVi (Instituto Estadual de Artes Visuais), obra que rendeu à Letícia uma menção honrosa e ainda foi indicada ao Prêmio Açorianos de Artes Plásticas. na categoria Fotografia. O projeto também recebeu o Prêmio Pierre Verger de Fotografia naquele ano, na categoria Trabalhos de Inovação e Experimentação na área de Fotografia.

A proposta de publicação de Conhecidos de vista em livro foi aprovada pelo Fumproarte em edital de 2015, mas lançada em 2018. Trata-se de uma obra sanfonada, em capa dura, com todas as páginas recobertas por fotografias. De um lado delas, aparecem somente as vistas de fora dos prédios; do outro, são contemplados os ambientes internos, junto a depoimentos (captados em conversas informais) dos moradores contando o que sabem dos vizinhos, que, quase sempre, não conhecem. Essa proximidade forçada, além de trazer detalhes sobre os hábitos banais daqueles que enxergam, desperta a imaginação sobre o que não veem.

Depois do primeiro lançamento em solo gaúcho, a obra foi apresentada em outras cidades brasileiras, como no Valongo Festival Internacional da Imagem (em Santos/SP). O livro também recebeu indicação ao Prêmio Açorianos de Destaque em Publicações em 2019. “Ele acabou se atualizando porque muito mais gente passou a viver uma situação que antes não percebia tanto. Imagina todos que começaram a trabalhar de casa pela primeira vez… De repente, estão diante de uma janela durante o dia todo! Isto foi criando uma identificação muito grande com este momento. Já me perguntaram se não tinha voltado a fotografar, se não estaria trabalhando numa continuação ou algo assim, mas não. Até porque era fundamental eu entrar na casa das pessoas. O livro fala da observação a distância, mas foi realizado através de visitas, através da quebra desta barreira, o que seria totalmente inviável agora”, comenta a autora.

Apesar de ser um capítulo encerrado, Letícia admite que é interessante ver esta atualização de sentido para quem lê. A edição de Conhecidos de vista (Incompleta, 152 páginas, R$ 70,00) começa a chegar perto do fim, mas ainda há uma boa quantidade à venda, por R$ 70,00, no site da artista e da editora .

“A fotografia tem esta coisa de parecer neutra, mas ela nunca é totalmente”, comenta Letícia Lampert sobre o projeto Conhecidos de vista , que foi apresentado pela primeira vez em 2013, na Sala Augusto Meyer da Casa de Cultura Mario Quintana, no Marcs, dentro do Prêmio IEAVi (Instituto Estadual de Artes Visuais), rendendo à fotógrafa menção honrosa. A exposição foi resultado da pesquisa de mestrado em Poéticas Visuais, realizada no PPGAV-UFRGS e defendida no mesmo período.

Publicado em edição bilíngue (português/inglês) em 2018, o trabalho lança um olhar para uma situação cada vez mais comum no contexto contemporâneo: prédios com janelas próximas demais. São vistas que não mostram a cidade e a paisagem, mas a vida do outro. Os vizinhos não se conhecem formalmente, mas, por esta proximidade forçada, podem tecer descrições sobre os hábitos banais daqueles que enxergam.

Sobre o resultado final e a montagem das imagens, a autora defende que o fotógrafo escolhe o que quer mostrar, e esta escolha é determinante, mesmo que seja muito sutil ou quase imperceptível: “Em relação às identidades, tentei ser o mais neutra possível. Não mexia nos apartamentos, fotografava o ambiente tal qual encontrava e fazia sempre o mesmo enquadramento. Era quase um método científico, queria uma amostra de determinada população. Mas em relação à cidade, escolhi nunca mostrar o céu, ou seja, escolhi mostrar apenas apartamentos onde a vista é totalmente barrada”.

Para ela, essa decisão muda totalmente a percepção do lugar: Já teve gente que comentou não sabia que Porto Alegre tinha ficado tão vertical! . De fato, não é tanto, a questão é que eu não estava mais preocupada em contextualizar uma cidade, mas evidenciar um recorte sobre uma situação específica que pode acontecer em qualquer lugar. Esta narrativa é totalmente construída através da escolha das imagens .

Leia a entrevista completa com a artista porto-alegrense:

Jornal do Comércio – Quando elegeste este tema do Conhecidos de vista para o teu mestrado, qual o conceito/concepção que as “janelas” tinham naquela época, início da década de 2010, que te motivou a produzir este trabalho?

Letícia Lampert – A minha motivação inicial era pesquisar sobre as relações entre espaço público e espaço privado, o quanto um afeta a relação com o outro e vice-versa. A janela acabou virando protagonista mais por consequência disto, por ela representar este ponto de conexão entre dois tipos de ambientes tão distintos e tão próximos. Era através dela que se dava este contaminação que eu queria explorar. Tinha também a questão do ponto de vista que, metaforicamente, a janela representa muito bem, pois me interessava investigar como diferentes pessoas se relacionavam com a mesma cidade de formas diferentes. Mas o projeto mudou bastante da ideia inicial até seu resultado final. A relação com a paisagem de um lugar específico foi perdendo lugar para a relação entre as pessoas de um lugar genérico. O projeto foi todo feito em Porto Alegre, mas ele acabou falando de uma situação que acontece em muitos outros lugares.

JC – Depois de 2020, com o isolamento social em função da pandemia, elas tiveram um protagonismo inicial na quarentena. De que modo a ideia de janela é atualizada hoje, nessa nova exposição? A questão do voyeurismo fica em segundo plano, em função de uma autonomia visual, de uma perspectiva de horizonte como esperança para a doença e de um convívio mais amigável (o único possível), apesar da distância?

Letícia Lampert – No Conhecidos de vista , a vista da janela está sempre barrada por outras janelas. Embora ele tenha acabado trazendo à tona as relações que se estabelecem entre elas, de início, ele foi se desenvolvendo muito mais como uma crítica à verticalização excessiva e desordenada, uma crítica ao apagamento e falta de conexão com a paisagem local, a um certo alienamento da cidade. Este horizonte de esperança que você fala é justamente o que falta ali, e o que me parece ter se tornado mais incômodo hoje. Propositalmente, o céu nunca aparece no trabalho inteiro. Quando fiz, isto era pra ser uma provocação mesmo. Há uma sensação de claustrofobia gerada de forma deliberada.

Hoje isto me parece muito mais duro do que quando fiz lá trás, pois deixou de ser uma provocação para ser algo muito real. Acho que se fizesse o projeto hoje, eu tentaria deixar pelo menos uma brechinha de esperança . Mas no fim, o que suaviza esta dureza e deixa o trabalho até com um caráter divertido, são justamente as relações humanas que se estabelecem entre janelas, apesar de tudo… E estas relações se potencializaram muito com o contexto da pandemia. As questões em si me parecem as mesmas, mas a nossa relação com elas mudou de intensidade.

JC – A própria noção de “vigilância” pode ter uma conotação mais positiva agora, em função da Covid-19 e o que ela impôs? O que aparecia muito ali era o “cuidar da vida do outro” como um fofoqueiro. Temas que se evidenciaram com a pandemia, como o uso do pijama o dia inteiro, o cuidado em espiar se os vizinhos idosos mantêm os mesmos hábitos, a violência doméstica, a tentativa de suicídio e os indicativos de solidão e depressão já apareciam nesse trabalho de 2013, por exemplo.

Letícia Lampert – Sim, acho que sim. Na verdade eu já tinha me surpreendido lá trás, quando estava fazendo o projeto. Eu esperava muito mais relatos incomodados com a vigilância e a perda de privacidade que este contexto de janelas cara a cara proporciona, e no fim encontrei também pessoas se cuidando, criando amizades (algumas reais, outras imaginárias), relações que quase dá pra se dizer que são de um certo conforto proporcionado por estes pequenos sinais de vida alheia acontecendo ao redor. E num momento de privação como agora, isto se potencializa ainda mais. Acho que o isolamento social só evidenciou algo que já acontecia antes em menor escala, pois não havia tanta gente em casa ao mesmo tempo. Mas já acontecia.

JC – No teu processo de entrar em cerca de 50 apartamentos de Porto Alegre e confrontar as miradas, como a volatilidade da proximidade se apresentou? Quais foram teus desafios para fazer as pessoas participarem e abrirem sua intimidade?

Letícia Lampert – Foi um processo que fui aprendendo a fazer enquanto desenvolvia o trabalho. A gente vive numa condição de muita desconfiança, de muita insegurança, então de fato não é fácil entrar na casa dos outros, principalmente da forma como eu fazia, espontaneamente, sem hora marcada. Foi se criando quase que um jogo: será que neste prédio vão me deixar entrar? Tinha prédio que não tinha jeito, em outros, eu conseguia vários voluntários. Dependida muito dos porteiros, na verdade, pois eram eles que faziam esta mediação. Alguns não queriam correr o risco de se incomodar, o que é bastante compreensível e eu não insistia, outros abraçavam a causa e queria dar um jeito de me ajudar. Tanto que gosto sempre de falar que eles foram os curadores do projeto, eles que definiram onde eu ia fotografar. Mas em relação aos moradores que me abriram a porta, eu não perguntava sobre a vida deles, perguntava sobre as vidas dos outros, a vida das pessoas que eles enxergavam pela janela, acho que isto facilitou bastante.

JC – O título da exposição virtual é Presença na ausência . Interessante analisar esse aspecto no teu vídeo, porque a camada discursiva se dá pela voz, enquanto as imagens não mostram os indivíduos, são estáticas – instigando o espectador a imaginar o que é narrado atrás daquelas fachadas que são apresentadas pela fotografia. Os cenários pertencem ao dono da história? Como foi pensada a montagem? Não há correspondência entre voz e imagem? Houve esse cuidado para não identificar os participantes?

Letícia Lampert – É interessante você levantar esta questão desta maneira, por que a intenção, e a execução, foi exatamente oposta! A voz é de fato a do morador (quer dizer, em alguns casos não é – às vezes acontecia de ter um relato muito bom e, por algum motivo, a foto do apartamento não ser e vice-versa – mas aí, sempre havia o cuidado de substituir por outro muito parecido, que poderia ter sido…). Eu queria ser o mais fiel possível ao que de fato encontrei nesta experiência. Acho que o que embaralha é que a voz corresponde ao interior, mas ela está descrevendo algo que acontece na fachada da frente, então o espectador precisa imaginar dois personagens ao mesmo tempo: o que fala e o que ele está descrevendo. A gente tende a pensar em quem está sendo descrito, mas a verdade é que a gente tem muito mais elementos de quem está descrevendo.

FONTE: Jornal do Comércio

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