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Educação | 06 de abril de 2021
Aprimorar o ensino remoto é o desafio
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Aprimorar o ensino remoto é o desafio

Redes sociais, televisão aberta, WhatsApp e outros aplicativos, rádio, bibliotecas virtuais e distribuição de materiais didáticos são algumas das estratégias usadas Brasil afora para manter o vínculo entre os alunos da educação básica com suas escolas durante o período de suspensão das atividades presenciais em razão da pandemia. Com o apoio das administrações públicas e até mesmo por iniciativa própria dos professores, diversas ações servem de bons exemplos para driblar alguns dos desafios do ensino remoto: evasão escolar e falta de acesso à internet.

Dados

De acordo com o relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) – publicado em janeiro e que traz uma compilação de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) que avaliou a situação da educação durante a pandemia -, em outubro de 2020, o percentual de estudantes de seis a 17 anos que não frequentavam a escola no país chegava a 3,8% (1.380.891).

Para termos de comparação, a média nacional de 2019 era de 2%, segundo a Pnad Contínua. Somam-se a esses mais de 1,3 milhão, outros 4.125.429 que afirmaram frequentar a escola, porém, sem acesso às atividades. Assim, as estimativas apontam para mais de 5,5 milhões de crianças e adolescentes que tiveram o direito à educação negado no ano passado.

Outro levantamento, dessa vez do Datafolha, encomendado pelo C6 Bank e também divulgado em janeiro, revelou que cerca de 4 milhões de brasileiros abandonaram os estudos em 2020. No Ensino Médio, esse percentual foi de 10,8%, enquanto no Fundamental o índice foi de 4,6%. É nesse cenário de dificuldades e incertezas que ações conjuntas ou individuais ganham força na tentativa de reter esses alunos na rede evitando o maior fantasma da educação: a evasão.

No Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual da Educação (Seduc) lançou mão de uma série de ações para viabilizar o ensino a distância. Houve investimento para compra de 50 mil Chromebooks, que ainda estão sendo distribuídos para os professores da rede; um programa de internet patrocinada, que, em parceria com a Assembleia Legislativa, viabilizou o acesso para alunos e professores para uso exclusivo nas ferramentas relacionadas às aulas; qualificação de professores para atuação nas aulas remotas; adesão a plataformas de leitura e transmissão de aulas preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pela TVE.

Com essas iniciativas, o Rio Grande do Sul foi o Estado que registrou maior índice de acesso à plataforma Google for Education, segundo dados da própria companhia. Conforme o Google, o RS conseguiu que 82,86% dos alunos da rede pública tivessem acesso ao Google for Education, ficando na frente dos demais Estados brasileiros e do Distrito Federal.

Recomendações

Com a pandemia, a fragilidade do sistema de ensino remoto e as perdas econômicas, que obrigam muitos alunos a irem atrás de um emprego para ajudar na renda familiar, tornaram-se as principais razões para a evasão escolar, diz Ivan Gontijo, coordenador de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação. Nesse contexto, houve um efeito dominó: sem internet ou acesso às atividades escolares, os alunos se desestimularam e acabaram rompendo os vínculos com as escolas e deixando os estudos.

– Todo mundo foi prejudicado, mas estudantes com mais dificuldade, menos acesso e mais vulneráveis foram os mais prejudicados – observa Gontijo.

Para tentar estancar esse problema, o Instituto Rui Barbosa (IRB), por meio do seu Comitê Técnico da Educação (CTE), emitiu, ao longo da pandemia, uma série de documentos e notas técnicas com recomendações para os municípios. Nos textos, foram tratados temas como distribuição da merenda escolar, cuidados com a privacidade dos dados exigidos por algumas plataformas, priorização dos professores na vacinação contra a covid-19 e também a busca ativa que, simplificadamente, significa ir atrás de crianças e adolescentes que romperam os vínculos com a escola.

– Evasão e abandono são problemas crônicos no Brasil. As estimativas para 2020 eram de que 1,5 milhão iriam se desprender das redes, mas vimos que isso superou os 5 milhões – afirma Cezar Miola, conselheiro do Tribunal de Contas do RS e presidente do CTE do IRB.

A proposta, diz Miola, além de estimular que os municípios usem a plataforma já existente de Busca Ativa da Unicef, é incluir outros mecanismos, como mobilizar redes de saúde, de assistência social e conselhos tutelares a fim de sensibilizar as famílias da importância da retomada dos laços com a escola.

Iniciativas

Embora seja preciso percorrer um longo caminho para garantir o acesso adequado à educação a distância, busca de soluções e boas iniciativas não faltam. O próprio Todos Pela Educação elaborou uma nota listando as medidas necessárias para garantir uma educação de qualidade no retorno às aulas presenciais que, como resume Gontijo, trata da segurança sanitária, das adaptações para receber e ambientar novamente os alunos às escolas e também em como diagnosticar as condições em que os alunos retornam. Enquanto a volta presencial ainda não tem perspectivas, a melhor solução, afirma o coordenador do Todos Pela Educação, é oferecer o melhor ensino remoto possível.

Alternativas para qualificar a educação a distância

Para driblar as dificuldades do ensino remoto na educação pública, diversas ações servem de bons exemplos. Em Colorado do Oeste, município rondoniense com cerca de 15 mil habitantes e distante mais de 700 quilômetros da capital, Porto Velho, uma conversa virtual com os alunos do 8o ano da Escola Paulo de Assis Ribeiro acendeu o sinal de alerta na professora de Língua Portuguesa Clezilaine de Souza Chaves, 31 anos e 10 deles dedicados ao magistério.

Estudantes relatavam que gostavam de ler, mas não tinham livros em casa. A docente, hoje, é uma disseminadora do projeto Biblioteca Virtual, no qual oferece obras em PDF para leitura em computadores, tablets ou celulares. Atualmente, o acervo conta com 24 livros, que serão renovados a cada dois meses.

Meios

Rádios e televisões, de meios de comunicação passaram a ser usados também como meios de educação em alguns Estados brasileiros. Em Goiás, no Centro- Oeste, o governo estadual usou as redes de rádio e de televisão estatal para divulgar conteúdos. Com isso, garante Fátima Gavioli, secretária de Educação de Goiás, as lições conseguiram chegar até mesmo nas áreas mais distantes.

Aliada a essa estratégia, a pasta goiana manteve o repasse aos municípios referente ao transporte escolar para que eles fizessem o trabalho de distribuição da merenda escolar e dos materiais didáticos para regiões menos acessíveis. Assim, comemora Fátima, o Estado conseguiu atingir, no Ensino Médio, 63% da aprendizagem prevista para o ano letivo.

– Não vai chegar a 100%, mas confesso que ter essa avaliação me deixa satisfeita – diz.

Para 2021, a secretaria investiu na compra de equipamentos como notebooks e deve disponibilizar um valor de R$ 100 para que eles contratem um serviço de internet.

O Estado do Paraná agiu em diversas frentes para garantir que o ensino chegasse aos mais de 1 milhão de alunos da rede estadual pública. Inicialmente, antecipou o recesso do meio do ano para março, ganhando duas semanas para fazer o planejamento, que resultou na oferta de videoaulas em diversas plataformas.

Para tornar as videoaulas viáveis, a Secretaria de Educação e Esporte paranaense (SEED) selecionou professores para gravar os conteúdos, transmitidos em três canais de televisão. Esse mesmo material foi reproduzido no YouTube no aplicativo Aula Paraná.

Outra ferramenta fundamental de acompanhamento dos estudantes foi a adesão ao Google Classroom, ambiente no qual a SEED criou salas de aulas para esclarecimento de dúvidas, realização de tarefas e monitoramento dos alunos. Por fim, como medida paliativa, o governo ainda disponibilizou materiais impressos.

Planejamento

Em Tramandaí, no Litoral Norte, a prefeitura e Promotoria Regional de Educação se uniram para discutir como tratar da melhor forma possível o ensino remoto. Nasceu um plano estratégico para fazer a transição do ensino presencial para o a distância, que incluiu, entre outras ações, investimento na qualificação de professores e demais profissionais da rede escolar, criação de ambientes digitais para alunos e docentes e repactuação do currículo.

– Estabelecemos quais conteúdos eram essenciais e aqueles que poderíamos deixar para o momento da retomada presencial – explica Andrios Bemfica dos Santos, chefe do Departamento Pedagógico da Secretaria de Educação de Tramandaí.

Os bons frutos do trabalho refletem nos números da evasão: no final de 2016, 148 alunos evadiram, o equivalente a 3,09%. Em 2020, foram 101, com percentual de 1,94%, ilustra Santos.

CAMILA KOSACHENCO – camila.kosachenco@zerohora.com.br

FONTE: GZH

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