Em 10 anos, a lei federal de cotas transformou uma geração de beneficiários que acessaram às universidades federais. Abaixo estão os dez principais efeitos mapeados pela pesquisa, além de  Recomendações de engajamento para pessoas, empresas e meios de comunicação:

1 – O impacto das ações afirmativas começa antes mesmo do vestibular. 78% dos cotistas concordam com a frase “antes de saber sobre as ações afirmativas, eu não cogitava ir para o ensino superior”. Em contraponto, 31% dos elegíveis que não usaram nem as cotas, nem nenhuma outra política afirmativa, acreditam até hoje que não se encaixam nos critérios da lei. É urgente que se tenha mais comunicação pública sobre as cotas em linguagem objetiva e convidativa, não apenas para informar, mas também para motivar pessoas elegíveis.

2 – As universidades federais representam um espaço inédito para muitas famílias. Dos cotistas entrevistados, 95% afirmam que o ingresso foi motivo de orgulho para a família e 46% declararam que foram as primeiras pessoas da família a cursar o ensino superior, materializando sonhos de várias gerações. Ainda assim, por viverem um momento de calibração de uma política recente, enfrentam uma série de dificuldades emocionais e financeiras. A política de cotas trata do acesso ao ensino superior, mas não pode ficar restrita a ele, afinal sua maior lacuna hoje é ligada à permanência. Todo apoio nesse sentido é crucial, sejam políticas públicas ou programas e auxílios de outros setores da sociedade que garantam a permanência qualificada na universidade.

3 – As conexões feitas na universidade ampliam visões de mundo e oportunidades futuras. 75% dos cotistas disseram que aumentaram muito o seu ciclo de amizades e contatos profissionais, e esse contato com pessoas de diferentes realidades e origens foi descrito como o maior ganho do ensino superior, pois implicaram em uma expansão das suas perspectivas pessoais. Criar espaços de circulação de oportunidades e de troca sobre outras realidades pode ajudar a fortalecer esse movimento atualmente orgânico.

4 – Os cotistas vivem em uma corrida contra suas próprias histórias e fazem esforços constantes para compensar uma vida inteira de desigualdades. Identificamos que os cotistas tendem a realizar um grande número de atividades extracurriculares ao longo da graduação de forma simultânea, motivados principalmente pelo desejo de: (i) compensar lacunas na formação, (ii) retribuir para a sociedade o que receberam e (iii) acumular experiências no currículo. É necessário, então, ampliar o leque de oportunidades disponíveis tanto durante a graduação quanto nos anos anteriores a ela, através de cursos livres, idiomas, tecnologia, habilidades técnicas para sua área, preparação para processos seletivos, estágios.

5- O custo de estar em um espaço de prestígio é alto e coloca os cotistas em uma constante pressão, tanto do mundo de origem quanto neste novo. Transitar entre realidades muitas vezes contrastantes faz com que os cotistas precisem responder a uma série de demandas e expectativas de suas famílias, de professores, colegas de turma, amigos, parentes etc. Pressionados para terem bom desempenho e apresentarem rapidamente os frutos do investimento na educação, vivem em constante tensão e preocupados com seu futuro profissional. Para contornar isso, é importante mais oferta de atendimento psicoemocional dentro das universidades, mas também fora delas.

6- Depois de tanto investimento, os cotistas tendem a ter uma boa autoestima e reconhecem o valor de seus diplomas. Conscientes do prestígio e qualidade da formação que tiveram, tendem a construir grandes expectativas sobre seus futuros profissionais, mas isso nem sempre acontece quando vão para o mercado de trabalho. É imprescindível que o mercado de trabalho passe a enxergar toda a potência dos cotistas, adequando processos de seleção para não perder pessoas que não se encaixam em pré-requisitos excludentes.

7- A formação universitária permite o acesso a trabalhos menos precarizados e a uma estabilidade financeira muitas vezes inédita para suas famílias. Após o término da graduação, 73% dos cotistas entrevistados declararam que estão trabalhando, destes, 80% são CLT. Além disso, observamos saltos de renda individual que chegavam a multiplicar em 10x os ganhos obtidos durante a universidade, o que permite que esses indivíduos possam oferecer melhores condições de vida para suas famílias. As experiências na área de trabalho são fortes alavancas para isso, então é crucial abrir mais oportunidades para perfis diversos em posições que viabilizem o contato antecipado com a prática profissional, como estágio, iniciação científica, empresas júnior etc.

8 – Após a graduação, os cotistas enfrentam novas experiências de exclusão: o ingresso na área de formação, uma permanência que não seja adoecedora e, principalmente, a ascensão profissional. Devido ao tabu sobre ações afirmativas no mercado, jovens profissionais altamente qualificados precisam migrar para outras áreas ou aceitar a estagnação em cargos de assistência. O mercado pode se inspirar mais em políticas públicas de inclusão bem-sucedidas, para tornar-se mais eficaz na sua recente busca pela diversidade.

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9 – A vivência universitária alimenta o desejo de seguir investindo na educação. Novos sonhos, que até então pareciam distantes ou impensados, passam a parecer possíveis. Neste rastro, emerge a demanda por políticas públicas e privadas de inclusão na pós-graduação.10 – Cada cotista carrega o potencial de multiplicar a inclusão vivida através do seu próprio exemplo. 83% dos cotistas entrevistados afirmaram que influenciaram amigos e familiares a estudarem mais ou voltarem a estudar. Isso significa que, muito além dos diplomas individuais, as ações afirmativas têm a capacidade de produzir novas referências e romper com processos de exclusão que se acumulam de geração em geração. Disseminar histórias causa identificação e motiva novas gerações. Portanto, podem e devem estar mais presentes na pauta pública brasileira.